A forma como lidamos com nossas finanças é mais parecida com o nosso comportamento em relação aos armários da nossa casa do que imaginamos.

Talvez por ser mulher, ter descendência japonesa ou mania de organização, encontro sempre alguma dica aplicada às finanças nos episódios de Ordem na Casa com Marie Kondo, cuja primeira temporada está disponível na Netflix.

Para quem não conhece, na série de apenas oito episódios, a japonesa especialista no assunto aplica um método próprio de organização na casa de pessoas em diferentes momentos de vida.

Em comum, a maioria dos candidatos a receber o método estão em fase de transição: recém-casados, morando em uma nova cidade, viúvos, recém-aposentados, à espera do primeiro ou de mais filhos e quem não mora mais com filhos.

Marie conta que seu método, o KonMari, tem como diferencial organizar uma casa por categorias e não por áreas. A primeira categoria a ser colocada em ordem é a de roupa, seguida por livros, papéis, itens variados (de banheiro, cozinha e garagem) e, por último, os itens de valor sentimental.

Mais interessante que o método é como ela conduz cada participante a atravessar essa difícil jornada emocional que é organizar aquilo que sempre escondemos dentro de casa. É aí que encontrei um paralelo com o planejamento financeiro.

O ato de tirar tudo do lugar para escolher o que fica e o que sai pega em cheio as emoções das pessoas, assim como acontece na hora abrir os extratos e separar os gastos por categoria (moradia, alimentação, transporte, lazer, saúde, previdência etc), para então decidir o que fica e o que sai.

Podemos concluir que é tão difícil desapegar de objetos quanto de hábitos financeiros.

ROUPAS E GASTOS: FIQUE SÓ COM OS QUE SERVEM

No método da japonesa, ela orienta que as pessoas toquem cada uma das peças de roupa e fiquem só com aquelas que realmente trazem um sentimento de felicidade.

No planejamento financeiro, fica a dica de “Marie-Rejane”: olhe para cada linha de despesa e se pergunte se isso realmente te faz bem ou se você gasta porque não teve tempo de fazer diferente / porque estava estressado no dia / ou se já está há um tempão precisando cancelar, mas sempre esquece.

A verdade é que, se você procurar, verá que não usa tudo (incluindo objetos) que tem nos armários de casa. O mesmo acontece com os gastos.

Usando o jargão das finanças comportamentais, armários e orçamentos ficam assim por causa de um viés chamado status quo – o nome até é pomposo, mas pode ser nocivo: trata-se do comportamento de deixar tudo como está e evitar mudar as coisas de lugar. É o famoso “está bom do jeito que está”.

LIVROS, PAPÉIS E INVESTIMENTOS: PENSE NO QUE QUER PARA SEU FUTURO AO ESCOLHÊ-LOS

Outro item que se acumula em gavetas, armários, estantes e prateleiras na casa das pessoas são livros e papéis diversos (cartões, documentos importantes e até aqueles que estão lá para recordação).

Marie Kondo orienta a fazer uma montanha deles, dar um tapinha para acordá-los e, ao pegar cada um, se perguntar se refletem os seus valores e quais benefícios você acha que podem trazer ao seu futuro.

O comportamento com livros pode se repetir diante de aplicações financeiras. É comum encontrar pessoas que investiram o dinheiro em aplicações financeiras que não fazem sentido para o que elas desejam para elas no futuro. Fica a reflexão.

COMO ESSAS SITUAÇÕES FAVORECEM SENTIMENTOS DE UNIÃO,  DOAÇÃO E ACEITAÇÃO

Assim como no processo de organização de um lar, no qual flagramos os participantes frustrados por não conseguirem desapegar de objetos, também é comum que, numa família ou no casal, alguém paralise enquanto organiza a vida financeira.

Marie diz que este momento é uma oportunidade de um ajudar o outro e de descobrir se todos compartilham dos mesmos valores. Arrumar a casa e a vida financeira fortalece esses laços invisíveis.

Em famílias com muitas crianças pequenas, a organizadora recomenda que elas sejam integradas ao processo e sejam chamadas a brincar de dobrar roupas e guardar objetos.

 No planejamento financeiro, a brincadeira é criar um jogo ou competição para que guardem moedas no cofrinho, protegendo-o, para no final obter um grande prêmio.

O resultado da organização é que casas antes entulhadas ficam lindas e cheias de caixas, lotadas de objetos que podem ir para a doação de alguma causa que a pessoa apoia.

Outra alternativa que Marie não explora é a possibilidade de vender objetos que estão novos e nunca foram usados. Com o dinheiro da venda, compre algo que precisa e invista o restante.

Muitas vezes a pessoa se sente culpada por nunca ter usado uma roupa ou objeto e não consegue se desfazer por isso.

Para diminuir esse sentimento de culpa, o método da japonesa recomenda um agradecimento a todos os itens antes que eles sejam descartados. Agradeça por eles terem ensinado a você que eles não fazem mais parte do seu estilo.

O fim de todo episódio mostra o sentimento de satisfação dos residentes de cada casa com o espaço livre e bonito que ganharam depois de todas as dificuldades.

 No fim de um processo de planejamento financeiro, o sentimento é muito parecido: a satisfação de ter liberdade financeira para viver bem hoje e, ao mesmo tempo, saber que é capaz de realizar amanhã sonhos que até então estavam guardados em gavetas esquecidas.